9 de julho de 2013

Reflexão: Vista Cansada

Vista cansada



"Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença."

Otto Lara Resende

Há alguns meses a minha professora passou esse texto(do qual eu gostei muito) em um trabalho. Me fez refletir muito.. E cheguei a conclusão que não damos valor a simplesmente nada ao nosso redor. Nada pelo qual passamos, estamos, vemos, usamos todos os dias. Precisamos dar valor à tudo. Todos os pequenos gestos, pequenas coisas, ou até grandes gestos e coisas, que passam todos os dias por nós, que com o tempo, vira rotinha, e infelizmente acabamos não percebendo mais. Pois já acostumamos, e nada mais acaba nos surpreendendo.
Parei para pensar em várias coisas que faço há anos, pessoas que convivo, lugares em que passo, e realmente, infelizmente, não lembro de detalhes de todos. Isso mostra que com todos acontece isso: acostumamos, e o que cai na rotina, acaba passando imperceptivelmente. Burrice nossa! Pois um dia, alguma coisa pode acabar, e não teremos recordações.

Espero que tenham postado desse post, pois foi o primeiro que não foi look.


Beijos,
Ju Berlim

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